Alain Gagol, do longa francês indicado para Melhor Animação Um Gato em Paris, deu entrevista ao cmais+ em 2011
Roteirizado por Alain Gagnol e dirigido por ele e Jean-Loup Felicioli, Um Gato em Paris conta a história de Dino, um gato que divide sua vida entre duas casas. Durante o dia, ele vive com Zoé, a filha de Jeanne, uma delegada de polícia. Durante a noite, ele escala os tetos de Paris em companhia de Nico, um ladrão de grande habilidade. A vida deles se entrelaça por causa do bandido Costa e o desfecho foi revelado nas sessões do último Festival Varilux de Cinema Francês, que ocorreu em junho de 2011 em 22 cidades do Brasil. Alain Gagol falou ao cmais+ sobre seu filme, a reação das crianças e o mercado de animação.
Como você teve a ideia do roteiro?
A ideia era fazer um filme policial para crianças. No cinema isso não existe, mas na literatura sim. Não sei aqui, mas na França existem muitos livros policiais para crianças e um desenho animado não existe. São policiais de verdade, são gângsters de verdade, o gato é um gato de verdade.
A produção levou quanto tempo?
Não foi feito no computador, foi feito todo à mão. São 12 desenhos por segundo, então no final acho que foram próximo de 40 mil desenhos, algo assim. É bastante, principalmente por ser feito à mão, no papel. A escrita do roteiro levou entre dois e três anos e a produção levou três anos também, então ao todo levou cinco ou seis anos.
Vocês não se cansaram da história?
Não, ao contrário. Eu gosto muito de trabalhar assim por que é um luxo, um pouco, se aprofundar, a gente pode trabalhar de maneira sutil. É bom.
O filme foi indicado ao Prêmio César 2011, a principal premiação do cinema francês. Como foi?
Foi muito engraçado! Nós fazemos desenhos animados, então é cinema, mas ao mesmo tempo é um universo muito diferente do cinema com atores. A gente não está em um mundo da televisão. A gente desenha em folhas, para mim foi engraçado estar em um lugar com Jodie Foster, Quentin Tarantino, Catherine Deneuve... Para mim é muito exótico, é muito diferente da minha vida normal. Por que eu me fecho em uma sala e eu desenho, é só. A gente escuta o MP3 e é isso, o dia todo.
Quantas pessoas trabalharam na produção do filme?
60. É muito e é pouco. Se a gente compara com um desenho animado americano, como a Pixar, não é muito, por que eles são uma centena, não sei. Mas se não, sim, é bastante. Por que o filme é bem longo. Como a gente desenha cada imagem e como eu dizia são necessários 12 desenhos por segundo, efetivamente é muito longo.
Você estava presente na exibição do filme nesta manhã e várias crianças foram assistir. Qual foi a reação delas?
Eles fizeram muitas perguntas! O filme é recomendado para crianças a partir de 6 anos mas para os mais novos ele é mais ou menos difícil para compreender. Por exemplo, alguns não entenderam por que a menina não falava, mas eu perguntei aos outros e disse ‘para vocês, por que ela não fala?’ e os outros tinham a resposta: ‘por que ela está muito triste’ [Zoe, a menina, perdeu o pai assassinado por um bandido]. Então existem duas grandes compreensões assim. O que os surpreende também é o fato de o personagem principal ser um assaltante. Mas não é um assaltante violento. O malvado de verdade é o assassino. Ele assalta, não é bom, mas no entanto ele não faz mal a ninguém e sobretudo o mais importante é que no início da história ele é um assaltante mas no final ele é um heroi. E no final o assaltante se apaixona pela policial e ela se apaixona por ele. E isso também surpreende as crianças.
Mas essa parte em que eles se apaixonam não fica muito clara. O filme os mostra juntos mas eles não se beijam...
Não, mas as crianças entendem bem. É suficiente por que é uma imagem que se passa no Natal, e o Natal é uma festa familiar então como eles estão todos juntos... Em todo caso as crianças entendem.
A reação deles foi boa, então?
Ah, sim. No final eles me pediram muitos autógrafos e eu fiz alguns desenhos para eles e ao mesmo tempo eles diziam o que tinham pensado, então eu fiquei feliz de tê-los divertido. Eu já participei de muitas projeções em vários países e em geral eu encontro boas reações. O que é bom também é um filme para crianças mas nós exibimos para adultos também e há referências a Cães de Aluguel, a O Mensageiro do Diabo, a Os Bons Companheiros, de Scorcese, então eu fiquei contente de ver que as crianças se interessavam mas os adultos também.
Você já dirigiu curtas metragens e esse é o seu primeiro longa. Quais as diferenças? As dificuldades são as mesmas?
É muito diferente por que custa muito mais caro. E o cinema é muito uma questão de dinheiro. A maior dificuldade é encontrar dinheiro para fazer um filme. O orçamento deste filme foi 4,5 milhões de Euros por que nós pagamos salários por muito tempo por que nós trabalhamos por três anos. Mas a grande dificuldade é que de costume no curta metragem a gente pode fazer em duas ou três pessoas, mas nesse nós eramos em 60. É preciso manter o mesmo desenho, ele não pode ser mudado pelas diferentes pessoas trabalhando. A dificuldade é essa, manter a qualidade artística. Apesar do fato de ser uma produção mais industrial. Por que o cinema é metade indústria e metade arte. É preciso chegar aos dois e que eles sejam equilibrados. É preciso que o resultado seja o mais artístico possível mas é preciso fazer sem estourar o orçamento e no final ganhar dinheiro, por que custa caro.
Você também escreve romances. O que você prefere, a literatura ou o cinema?
Eles são bem diferentes, o trabalho não é nada parecido. Eu gosto muito dos dois. O que eu gosto mais na escrita é a liberdade. Quando a gente escreve um romance a gente pode realmente inventar tudo, do começo ao fim. No cinema é mais complicado por que é preciso conseguir vender o roteiro a um produtor, a um canal de TV, é preciso ter dinheiro... Então é preciso fazer mais compromissos, convencer mais pessoas. Mas os dois tem vantagens e inconvenientes. Quando a gente escreve um livro na verdade o que conta mais - a história é importante - mas o que conta mais é o estilo, é a literatura. É realmente a música da literatura. E quando a gente escreve um roteiro o que conta são as imagens que vão vir depois.
Na coletiva você disse que as animações sempre tiveram um papel bom na França mas que ainda é difícil fazê-la. No entanto, o país tem produzido boas animações. Como você vê esse momento?
A vantagem na França é que nós temos muitos desenhistas com traços diferentes, e isso é muito rico, no entanto nosso ponto fraco é a competição contra os americanos. E eles têm muito dinheiro, então eles podem fazer muito mais publicidade. Por exemplo, eu falava do orçamento do meu filme, que é de 4,5 milhões de Euros, e esse é o orçamento da publicidade do Megamente só na França. Quando o filme saiu os cartazes de Megamente estavam por toda a parte: no metrô, nas paredes, em todas as cidades da França. E não tinha nenhum cartaz de Um Gato em Paris. Então é difícil lutar contra isso por que as crianças querem mais ver esse. E tinha também os brinquedos no McDonalds então... Mas isso não quer dizer que o filme não é bom, os americanos fazem filmes muito bons, eu adoro os filmes da Pixar, por exemplo, mas a nossa dificuldade é de existir diante disso. Por que a gente chega com uma coisa diferente e as crianças têm mais o hábito de ver um certo tipo de filme, então é preciso fazer um esforço para que eles vejam nosso filme e há ainda menos publicidade. Mas Um Gato em Paris teve sucesso e nós ganhamos o que gastamos, a gente não perdeu dinheiro, então é possível.
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